O Boticário transforma pedidos do público em relançamentos. Entenda como a campanha Chefe dos Descontinuados une nostalgia, social listening e estratégia de marca.
Um perfume pode sair de linha, mas nem sempre sai da memória. Quando uma fragrância acompanha uma fase importante da vida, o vínculo com ela deixa de ser apenas funcional: o produto passa a representar pessoas, lugares e histórias. É justamente nessa relação que O Boticário está apostando ao trazer de volta itens pedidos pelo público.
A iniciativa ganhou o nome Chefe dos Descontinuados, uma plataforma de campanha criada para ouvir consumidores e avaliar quais produtos merecem uma segunda chance. A proposta mistura entretenimento, escuta social e decisão de portfólio — e mostra como a nostalgia pode funcionar como fonte de dados, conteúdo e valor de marca.
O movimento começou com o retorno da linha Dream e avançou para fragrâncias e itens de cuidados pessoais que haviam deixado as prateleiras. Mais do que reviver sucessos, O Boticário tenta transformar pedidos antigos em lançamentos relevantes para o presente.

Quais produtos descontinuados de O Boticário voltaram?
A campanha atual reúne nomes conhecidos por quem acompanha a marca há mais tempo. Entre os produtos apresentados no projeto estão Egeo Melancia, Egeo Banana, Cuide-se Bem Melancia, Cuide-se Bem Deleite Chocolatudo, Cuide-se Bem Lavandinha e versões da linha Dream.
No caso de Dream, voltaram Viagem Encantada, Céu de Baunilha e Amor no Ar. Já Egeo Melancia e Egeo Banana retornaram ao portfólio com venda em lojas, comércio eletrônico e revendedores da marca.
É mais preciso falar em produtos e fragrâncias descontinuados — e não apenas em perfumes. A ação inclui body splashes e itens de cuidados pessoais, ampliando a ideia para diferentes categorias do portfólio.
Esse detalhe ajuda a entender a dimensão estratégica da campanha. O Boticário não está apenas recuperando um frasco específico. Está revisitando famílias de produtos capazes de reativar lembranças, conversas e hábitos de consumo.
Como funciona a campanha Chefe dos Descontinuados
O cargo de “Chefe dos Descontinuados” é uma construção criativa, não uma posição real no organograma da empresa. A função da personagem é dar rosto e linguagem a um processo verdadeiro: acompanhar pedidos do público, interpretar sentimentos recorrentes e identificar produtos com potencial para voltar.
A plataforma foi criada pela agência SoWhat e estreou com a volta de Dream. Em sua nova fase, a campanha usou conteúdos com a criadora Jhenny Keller, conhecida nas redes sociais por fazer previsões. Elementos como melancia, banana e chocolate apareceram como pistas antes da revelação dos produtos.
A escolha desse formato é inteligente porque transforma uma decisão de portfólio em narrativa. Em vez de começar com um anúncio tradicional, a marca cria curiosidade, estimula interpretações e convida as pessoas a comentar. O público não recebe apenas a informação do relançamento: participa da descoberta.
Há ainda uma boa combinação entre conceito e execução. Se a campanha pretende ouvir o consumidor, os comentários deixam de ser apenas uma métrica de engajamento. Eles se tornam parte do próprio produto de comunicação e podem oferecer sinais sobre demanda, lembrança e afinidade.
Nostalgia funciona melhor quando encontra relevância
Trazer um produto antigo de volta não é, por si só, uma estratégia. A nostalgia pode gerar atenção inicial, mas precisa estar conectada a uma proposta que ainda faça sentido para o consumidor.
Nesse caso, O Boticário trabalha com três camadas ao mesmo tempo:
- Memória afetiva, ao recuperar fragrâncias associadas a experiências pessoais.
- Validação social, ao mostrar que outras pessoas também pediam os mesmos retornos.
- Novidade, ao reapresentar os produtos dentro de uma campanha contemporânea.
É essa combinação que evita a sensação de simples repetição. O produto é conhecido, mas o contexto é novo. A marca reaproveita um ativo do passado sem parecer parada nele.
Para o branding, existe outro ganho: o relançamento reforça a ideia de que a empresa presta atenção. Quando pedidos recorrentes viram ações visíveis, o consumidor percebe que sua relação com a marca pode produzir consequência.
Isso não significa que toda solicitação nas redes deva se transformar em produto. Comentários representam uma parcela específica do público e precisam ser cruzados com critérios como viabilidade, posicionamento, disponibilidade de insumos, potencial comercial e coerência de portfólio. A escuta é o começo da decisão, não a decisão inteira.
O relançamento como estratégia de social listening
Social listening costuma ser tratado como monitoramento: contar menções, classificar sentimentos e acompanhar assuntos. O caso do Boticário aponta para um uso mais interessante. A escuta ajuda a conectar comunicação, desenvolvimento de produto e negócio.
O processo pode ser entendido em cinco movimentos:
- A marca identifica pedidos recorrentes e lembranças espontâneas.
- Organiza esses sinais para encontrar padrões.
- Avalia quais produtos têm condições de retornar.
- Transforma o retorno em uma história participativa.
- Observa a resposta para orientar os próximos movimentos.
Essa lógica forma um ciclo. Os comentários alimentam a campanha, a campanha provoca novas conversas e essas conversas produzem novos sinais para a marca.
É uma aplicação prática da ideia de comunidade. Em vez de tratar o público apenas como audiência no fim da cadeia, a empresa cria espaço para que ele influencie a pauta — ainda que a decisão final continue sendo da marca.
Para quem trabalha com produtos digitais, há um paralelo claro. Pedidos de funcionalidades não devem ser executados automaticamente, mas podem revelar problemas, expectativas e usos que a equipe ainda não havia priorizado. Em branding e produto, ouvir bem significa interpretar a necessidade por trás da solicitação.

Os resultados divulgados pela marca
Segundo dados divulgados pelo próprio Boticário, o retorno de Dream registrou crescimento de 421% no volume vendido em comparação com outros lançamentos da categoria e alcançou o maior volume de vendas de body splashes da marca.
Na fase seguinte, o primeiro conteúdo com as pistas de Jhenny Keller teria superado 1 milhão de visualizações orgânicas e 4 mil comentários em pouco mais de 12 horas, também de acordo com informações da empresa.
Esses números devem ser lidos como dados declarados pela marca, e não como uma auditoria independente. Ainda assim, ajudam a explicar por que a empresa ampliou a plataforma: o primeiro retorno demonstrou capacidade de converter lembrança em atenção e venda.
O indicador mais relevante não é apenas o alcance. É a conexão entre conversa e comportamento. Uma campanha pode gerar muitos comentários por curiosidade, mas o caso de Dream sugere que havia também disposição de compra.
O que outras marcas podem aprender com a campanha
O projeto oferece aprendizados que vão além do mercado de beleza.
1. O arquivo da marca pode ser um ativo
Produtos, embalagens, campanhas e histórias antigas formam um repertório proprietário. Quando esse acervo é revisitado com critério, ele pode gerar ideias que concorrentes não conseguem copiar com a mesma legitimidade.
2. A comunidade pode ajudar a reduzir incertezas
Nenhum comentário garante demanda em escala. Mas pedidos consistentes, repetidos ao longo do tempo e combinados com outros dados podem ajudar a priorizar oportunidades e formular hipóteses mais fortes.
3. A volta precisa de uma narrativa
Disponibilizar novamente um produto resolve a demanda funcional. Criar suspense, personagens e participação pública aumenta o valor simbólico do retorno. O Boticário não anuncia apenas que algo voltou; transforma o relançamento em acontecimento.
4. Nostalgia não dispensa atualização
O desafio está em preservar os códigos que despertam reconhecimento sem ignorar mudanças de contexto, linguagem, canais e expectativa. Uma volta bem executada equilibra familiaridade e contemporaneidade.
5. Marketing e produto funcionam melhor juntos
A força da campanha vem do encontro entre uma demanda observada, um produto que pode retornar e uma comunicação feita para ampliar a conversa. Se qualquer uma dessas partes estiver desconectada, a estratégia perde consistência.
Os riscos por trás de um retorno muito esperado
Quanto maior o vínculo emocional, maior também a expectativa. Consumidores podem comparar fragrância, embalagem, desempenho e preço com a lembrança que guardam — e memória afetiva raramente é um parâmetro neutro.
Também existe o risco de criar a impressão de escassez artificial ou usar a participação do público apenas como recurso promocional. Se a marca convida as pessoas a pedir produtos de volta, precisa comunicar com clareza como a seleção acontece e evitar promessas que não pode cumprir.
Outro ponto é a disponibilidade. Uma campanha nacional pode gerar procura concentrada em pouco tempo. Se o produto não estiver acessível nos canais anunciados, a empolgação se converte rapidamente em frustração.
Por isso, relançamentos baseados em nostalgia exigem tanto cuidado operacional quanto criatividade. O valor da ideia depende da experiência completa — da primeira pista publicada nas redes até o produto chegar às mãos do consumidor.
O Boticário transforma memória em movimento de marca
A volta dos produtos descontinuados de O Boticário mostra que nostalgia não precisa ser apenas uma estética. Quando combinada com escuta, dados e execução, ela pode funcionar como ferramenta para encontrar demanda, gerar conteúdo e renovar vínculos.
O aspecto mais interessante da campanha Chefe dos Descontinuados é a integração. A marca conecta memória afetiva, portfólio, influência digital, redes sociais e venda dentro de uma mesma ideia. A tecnologia entra como meio para observar e organizar sinais; o resultado aparece na capacidade de transformar esses sinais em produtos e experiências relevantes.
Para outras empresas, a lição não é simplesmente “traga produtos antigos de volta”. É mais útil perguntar: quais pedidos o público repete, que ativos a marca já possui e como essa escuta pode orientar uma decisão real?
Marcas fortes não vivem apenas do que já fizeram. Elas sabem reconhecer o que ainda tem valor e encontrar uma nova forma de colocá-lo em circulação.


